Equívoco

Holly Warburton

[você pode ler esse texto ao som de experience]

Acontece vez ou outra de criarmos aquela expectativa fodida sobre algo dar certo ou que a pessoa pela qual temos interesse vai se encaixar na exata projeção imaginada em algum devaneio aleatório do fim do dia; acontece vez ou outra de errarmos o ponto do molho do macarrão e comprarmos o que não precisamos, só pra aproveitar alguma promoção; acontece vez ou outra do texto sair ortograficamente incorreto, de lermos uma mensagem com raiva ou apenas silenciarmos todos os contatos no aplicativo de mensagens; acontece vez ou outra de ouvirmos as críticas severas do nosso “eu”, de nos martirizarmos pelas metas ainda não alcançadas ou permitirmos a perigosa arte da comparação.

Acontece vez ou outra de Mercúrio está retrógrado, daquela música tocar em momento inadequado ou uma brisa forte trazer o seu perfume; acontece vez ou outra de puxar assunto sem nenhuma pretensão, de demonstrar uma preocupação sincera e o desejo de que todos os seus objetivos sejam alcançados; acontece vez ou outra de te enxergar como você é, sem romantizar os fatos e saber lidar com seu egoísmo elevado; acontece vez ou outra de ouvir o seu nome e sua risada do nada, mas quando olho ao redor, você não existe.

MF.

Inominável

Holly Warburton

No meio do teu nome tem a palavra dor, mas eu não percebi; achei que a luz do meu coração fosse capaz de iluminar o seu, pra juntos revivermos aquela fantasia de dois adolescentes embriagados e inconsequentes; depois daquele ano que te levou pra longe – não me refiro à distância geográfica – ainda me pergunto o que teria sido da manhã de domingo se a noite do sábado tivesse acontecido do jeito que você projetou.

Se o tempo nos desse outra chance nos escolheríamos?

Esperei que as lembranças negativas sobrepusessem as positivas, pois é, desejei à uma estrela distraída te esquecer, mas toda vez que meu coração aperta eu lembro que no meio do teu nome tem a palavra dor.

MF.

Derramar-se

foto: Google

Na banheira com água morna;

No colchão de molas ensacadas;

No seu aconchego;

No luto de quem faz falta – mesmo sem ter morrido;

No colo de mãe ou do seu benquerer;

Na coragem de enfrentar as mudanças,

E não lamentar quando o leite estiver espalhado pelo chão;

Ou quando a lágrima teimosa inundar o travesseiro;

Quando te convido a mergulhar no oceano desconhecido do que pode ser nossa relação, mas me dou conta que você não sabe nadar.

Se eu tivesse um colete salva-vidas

Você viria?

MF.

Filhotes de Narciso

foto: Google

Eles estão nos corredores da faculdade, na fila do supermercado, na livraria, na farmácia, no hospital, no dentista, nas celebrações ecumênicas, nos aniversários, nos velórios, nos casamentos, no restaurante, nos elevadores, no breu do cinema, no trânsito, no avião, no metrô, na cozinha, na cama, no banho, na falta de noção e na ânsia em ser notado; a todo instante precisam provar que suas vidas são perfeitas, frequentam uma academia moderna, possuem corpos esculturais, postam foto de comidas saudáveis, de viagens ao redor do mundo, dos passaportes carimbados, de belas praias, das sobrancelhas pigmentadas, dos trabalhos “voluntários”, dos relacionamentos invejáveis, dos filhos fofos, dos cachorros e gatos humanizados, sem contar nas inúmeras xícaras de café que esfriam até a postagem ficar no padrão adequado pra receber alguns corações;

Enquanto isso, a vida real é esquecida.

MF.

Estilhaços

foto: Google

Amor, começo esse texto com uma confissão: você me quebrou. E quem dera fosse pelo frenesi de uma noite quente ou por chegar em casa às cinco da manhã de um sábado, depois de esgotar todos os passos de dança. Você me quebrou em pedaços que espalharam-se por todos os cantos e quando canto Chico chego a sentir o cheiro do seu perfume amadeirado que invadia a casa; olho pra cidade onde as praças, os parques, os restaurantes e até as bancas de jornais sussurram teu nome enquanto eu passo; no armário ainda guardo a caixa preta de veludo com a joia nunca usada, não ouso olhar pro porta-retratos e não ver o seu olhar apaixonado e o sorriso que iluminava meus dias mais sombrios; de todos os cantos do apartamento o mais apertado é o espaço que ficou na cama;

Você me quebrou em pedaços incontáveis. Não me reconheço no espelho, não me identifico com os móveis recém-adquiridos, não dirijo o nosso carro, não como mais chocolate, nem esmago o creme dental pelo meio; agora só faço café sem açúcar, não voltei pro curso de francês, não abri o vinho safra ruim que aguardava uma ocasião especial; não comprei uma bicicleta, não visitei as Bahamas como um dia planejamos; não casei, não tive cinco filhos, muito menos um cachorro.

Apesar dos fragmentos espalhados pelo chão, hoje sou uma versão melhor de mim.

MF.

Analógico

fonte: Google

Em tempos de mensagens instantâneas quero te escrever uma carta e enviar pelo correio, à moda antiga, assim como o sentimento que bate nesse peito calejado; em tempos de rede social sinto vontade de te encontrar pessoalmente, olhar nesses olhos de mar e dizer que sinto saudades; em tempos de fake news preciso que você acredite no amor, em especial no nosso que ainda não desabrochou, mas exala seu perfume em noite de chuva que pede uma segunda pele pra passar o frio;

Em tempos de imediatismo desejo que nosso próximo encontro dure uma eternidade, pois quando se trata do amor o tempo passa depressa; em tempos de reformulações espero que o plano de seguirmos juntos perdure, apesar do nosso maior empecilho fazer questão de nos manter afastados; em tempos de praticidade e internet 5G, com entregas  cada vez mais efêmeras, serviços a palma da mão e relações descartáveis, aguardo por todos os beijos que você não me deu; em tempos de nudes e denúncias de assédio, só penso em despir tua alma e em momento oportuno ficar cercado do nosso amor já crescido que não permitirá despedidas.

MF.

Me afoguei nos teus olhos de mar

foto: Google

Hoje submergi na imensidão azul dos teus olhos, que apesar de castanhos me atraem como hipnose; hoje te entreguei o que estava guardado no peito há muito tempo, rasguei o coração e abri o verbo sem surtir efeito algum, mas precisava libertar as palavras sufocadas; hoje encarei o espelho e não gostei do que vi, fiz uma autocrítica, um café amargo, um novo texto e uma oração para que todo sentimento nascido por ti fosse levado pra longe; hoje revivi uma sensação de fracasso camuflada de impotência e diria que você me causou hematomas incolores profundos; hoje fui ao cinema assistir um drama que me ajudasse a lavar os resíduos dos últimos dias, onde as mesmas palavras ouriçadas por atenção recolheram-se e escorreram pelos olhos;

Hoje eu queria estar frente a frente e esclarecer o que ficou nas entrelinhas para não restar dúvidas que não houve fingimento; mas só consegui descobrir que racionalizar os sentimentos pode ser devastador, pois o esforço que faço para não sentir me transporta pra perto de você e me afasta da superfície;

Hoje morri afogada no mar que é te amar em segredo;

MF. 

Desencontro do quase amor

foto: Google

Há quem não acredite em segunda chance para primeira impressão, assim como muitos afirmam que na vida existe apenas um amor verdadeiro e depois que a oportunidade passa nos resta lamentar; quando o conheci era ingênua e comprometida, não fazia ideia da leviandade humana, nem dos efeitos de uma ressaca sentimental regada à Ypióca Sport que escondemos na calça jeans pra conseguir passar pela catraca na entrada do festival de música;

Ele era o amigo em comum, o ponto de equilíbrio, o dançarino sem ritmo, sempre com o sorriso pronto e a covinha sorrateira que desmonta qualquer um; gentil e educado com as moças que passavam na esperança de não voltar pra casa sem provar o beijo de alguma; ganhei aquele sorriso inúmeras vezes, a amizade foi tomando forma, estreitando os laços, compartilhando segredos e aflições; a amizade se transformou em pretexto para a paixão que crescia escondida, guardada a sete chaves por medo do seu tamanho afastar dois corações jovens e inexperientes;

O mal da distância seria inevitável, a paixão silenciada ficou esquecida, assim como as tardes de churrasco e muitas risadas na calçada do condomínio; as obrigações da vida adulta chegaram feito furacão, nos arrastando pra rotinas estressantes que impediram outros encontros despretensiosos; o destino, sagaz que é, dava um jeito de meter a colher onde não era chamado e por vezes, estivemos na mesma hora a espera do ônibus lotado que seguia sem perspectiva para a próxima parada;

Nos veríamos pela última vez em um final de ano qualquer, como assim pensamos e o sentimento antigo que nunca deixou de existir gritava dentro do peito, mas o estourar dos fogos somado às felicitações diversas impediram que o essencial fosse dito; no decorrer de sete anos houve muitos acontecimentos, realizações e prosperidade na vida desse quase-casal-apaixonado;

Voltamos a nos falar com a ajuda de recursos tecnológicos e após a atualização das conversas acumuladas, o destino, metido que é, propiciou um novo encontro, um pouco tímido, cinéfilo, presente, bilhete, música inesquecível e um monte de quase: beijo, desejo realizado, sonho, mágoa, arrependimento. A vida, autoritária que é, fez com que os dois corações já não tão jovens e cheios de dúvidas se afastassem por tempo indeterminado;

Ressalto que as repetidas vezes que o não foi dito, o coração quis dizer sim, mas a razão, teimosa que é, me jogou o feitiço das palavras trocadas e agora o orgulho, que nem cabe nessa história, nos diz imponente que a culpa não é minha, tampouco sua, mas do desencontro, vingativo que é, nos persegue por prazer.

MF.

Gota D’água

foto: Google

– “foi a última vez.” ela gritou enquanto ele a segurava contra a parede.

– “não aguento mais.” ela berrou enquanto ele chutava suas costas pela décima vez.

– “você sai dessa casa hoje.” ela ameaçou enquanto ele acabara de fazer um hematoma em seu olho direito.

– “foi a gota d’água” – ela chorou.

A confusão foi tamanha que acordou a curiosidade dos vizinhos, assustados, chamaram a polícia e saíram de suas casas pra prestar qualquer auxílio à vítima. Era um misto de dor, angústia, ódio e vergonha, ao passo que jogava sua fúria em seu agressor, de alguma forma, se sentia culpada. Muitos pares de olhos observavam sua desgraça, se sentiu acuada e fechou o portão. A polícia chegou, homens encapuzados, armas nas mãos, batidas:

 – “abra, o socorro chegou.” – silêncio.

– “senhora, não tenha medo, abra.” – silêncio.

– “recebemos uma denúncia, mas precisamos que abra o portão.” – silêncio.

Os pares de olhos já haviam se recolhido, mas os ouvidos estavam atentos; os homens encapuzados disseram: “é sempre assim.” e foram embora.

Aquela não foi a última vez;

Ela aguentou mais;

Ele não saiu de casa;

E até hoje não sei qual gota d’água a matará afogada?

MF.

Girassol Azul

Os girassóis mais bonitos brilham de dia, no calor que desabrocha, no aconchego de um campo dourado; mas, os girassóis que mais gosto brilham no azul da noite, quando os diurnos estão quietos; não possuem a cor de sol, mas a frieza das ondas do mar – agitadas – assim com fico ao te ver ou quando você pronuncia meu nome ao pé do ouvido, ou ainda, quando diz jamais querer amanhecer, pois a comunhão do nosso amor não pede alvorecer.

O girassol que me encanta os olhos conhece cada traço e curva do meu corpo; me enxerga do avesso, não enjoa dessa rotina-descoberta diária e ficaria preso a ela até o mundo acabar e mesmo no final, pouco importariam os outros, estando nós – dentro um do outro – feito o coração que não pode sair do peito-caixa, esse que abriga tudo que consigo definir AMOR.

O girassol que me faz florescer a cada novo dia, me ensina que a vida – feito semente – pode levar tempo até germinar e bom mesmo é fazer o que se gosta, sem a preocupação excessiva com fracassos ou sucessos; me mostra que quem chega ou parte fará isso independente da nossa vontade – e tudo bem – pois não podemos controlar tudo.

O girassol que mais amo não é amarelo cor de sol, mas azul cor de saudade.

MF.